sexta-feira, agosto 20, 2004

Delícias Universais - Couscous

Cuscuz à Conquista do Mundo
Por JOSÉ-ALAIN FRALON
Público, Terça-feira, 17 de Agosto de 2004

Quando a China despertar, comerá cuscuz: este é o sonho de Adel Ben Rachid Rakrouki. No seu restaurante Le Petit Gourmand, instalado no bairro das embaixadas de Pequim, este tunisino afável e desembaraçado, não lhe bastando fazer as delícias dos expatriados franceses e árabes, está agora a iniciar os "golden boys" chineses nas delícias do "couscous royal". Frango, borrego e "merguez" [salsicha fresca de carnes de vaca e de borrego, muito condimentada, que geralmente se come fresca grelhada na brasa].

"No início ficam admirados, comem com os olhos, demoram o seu tempo e depois começam a comer e são conquistados", entusiasma-se Adel, bastante decidido a converter ao "arroz árabe" um número cada vez maior de habitantes de Pequim.

Tratar-se-á de um regresso às origens? Segundo alguns, o cuscuz será, na verdade, originário da Ásia. Para outros nasceu no Sudão no século VII. Todavia, a maioria dos historiadores da alimentação situam este nascimento na África do Norte. Não é verdade que as escavações arqueológicas revelaram a presença de utensílios de cozinha datados do século IX e com uma forte semelhança com os cuscuzeiros?

Mais do que discussões de especialistas, é de paixão que se trata! Como tão bem escrevem Hadjira Mouhoub e Claudine Rabaa ("Les Aventures du couscous", Ed. Sindab, Actes Sud): "No princípio era a estepe e sobre estas altas terras que foram férteis formou-se a alma do Magrebe. (...) Ela fala-nos do trigo duro transformado pela mó em sêmola coriácea, e celebra o cuscuz, alimento por excelência, transmitido pelos gostos imutáveis, encantamento ou bailado nos pratos onde as mãos, ao mesmo tempo pacientes e ágeis, transformam o que é bruto e seco em flocos leves como um sonho".

O Magrebe, inicialmente povoado pelos berberes, foi conquistado no século IX pelos árabes que o islamizaram e aí descobriram a sêmola à qual chamaram "keskes" (do árabe "kouskossou": o pó). Uma lenda pretendia que o nome vinha do barulho "kouss-kouss" que o pilão fazia ao esmagar o trigo.

"Sêmola amanteigada regada com um caldo de carnes de carneiro, fresco ou seco, com alguns legumes, cenouras, nabos, cardos, talvez verdura, sem especiarias, a não ser sal, e servida com leite fermentado ou com leite simples": eis o cuscuz original descrito por Hadjira e Claudine. Ele vai harmonizar-se de mil e uma maneiras, tomar mil e uma cores, impregnar-se de mil e um perfumes de acordo com a sua expansão territorial.

Pobre em casa dos pobres, rico em casa dos ricos

Servido com legumes nas planícies costeiras, torna-se mais austero no sul. Vermelho na Tunísia, onde se come com peixe, como o "cuscuz do Outono com raia", tem em Marrocos o gosto de todas as especiarias do mundo: pimenta, cubeba, galanga, noz moscada, canela, curcuma, cardamomo, gengibre, folhas de louro, cravinho de cabecinha, nigela [cominho preto], cominhos, alcaria, coentro, anis, funcho, tomilho, orégãos, pimenta Caiena. Os cabílias comeram-no com feijões pequenos, os andaluzes com canela. Também o vimos em mesas ricas de Portugal nas tendas líbias. Na Mauritânia, o cuscuz de painço [milho miúdo] come-se com tiras de carne seca. Pobre em casa dos pobres, rico em casa dos ricos.

No início do século XX, o cuscuz era praticamente desconhecido em França, a não ser nas tascas frequentadas pelos operários do Norte de África. Quanto aos apreciadores sofisticados, frequentam os restaurantes classificados na rubrica "cozinha exótica" dos guias turísticos. Durante a Ocupação, as autoridades francesas mandaram imprimir senhas de racionamento especiais marcadas com um Crescente para os "indígenas" que quisessem arranjar grãos de cuscuz.

A guerra terminou, a economia francesa precisava de mão-de-obra. Vindos da Argélia, que então era uma colónia francesa, chegaram a França milhares de trabalhadores. Mohand Kaci fazia parte deste exército de pobres. Em 1950, com um único bilhete no bolso - sem dinheiro para o regresso - deixa a sua Cabília natal, culturas em socalcos, a miséria, para tentar ganhar o seu pão em França. Conheceu as estações do Metro, "o único sítio onde se podia dormir sem dizer obrigado", conforme conta seu filho Serge, e estreia-se como lavador de comboios em Châtillon-Montrouge.

Em 1953, Mohand e um amigo compram um café no 13º Bairro. O bistrot, onde se serviam almoços e jantares aos clientes habituais, é então o único local onde se reúnem os imigrantes após o trabalho na fábrica. "A aldeia sem mulheres", dizia-se na época. O patrão desempenha o papel de chefe da aldeia. Como tem telefone, recebe as notícias da terra e transmite-as a uns e a outros. "Vai dizer ao Ali que tem um filho e que é um rapaz."

É também ele quem faz o cuscuz tornado prato principal, até mesmo único. Um cuscuz fortificante, que enche a barriga a estes homens duros. Ao sábado, há música, fala-se da terra, dança-se. Por vezes, mas muito poucas vezes, convida-se o "francês", camarada de fábrica.

Clientes atraídos pelos bons odores

Em 1956, desembarcam também judeus vindos da Tunísia. Entre eles, Andrée Zana-Murat. Ela conta: "Como habitualmente, adoptamos uma atitude discreta para nos integrarmos, os meus pais tinham comprado uma pequena mercearia. A minha mãe achou por bem continuar a fazer cuscuz. Os clientes eram atraídos pelos bons odores que saíam da cozinha. Perguntavam o que era e a minha mãe, para agradar, oferecia-lhes".

E Andrée, que agora escreve livros de cozinha, evoca o cuscuz de peixe "tão leve, com o peixe cozido no último minuto", ou ainda o cuscuz do "sabat", "com menta e todas aquelas ervas que lhe davam uma ténue cor verde".

A chegada, no Verão de 1962, de várias centenas de milhares de repatriados da Argélia, marca o verdadeiro início da implantação do cuscuz na metrópole. Os "pieds-noirs" começam a abrir restaurantes. Mimi de Guyotville, Chez Ficelle, Chichois: as tabuletas, só por si, trazem um perfume novo. A mais célebre continua a ser Charly de Bab El Oued. Uma figura, Charly, cem quilos, uma eloquência inimitável. Os fotógrafos imortalizaram-no, em Janeiro de 1960, começando a preparar as refeições para os revoltosos das barricadas de Argel, Charly recriou o ambiente da cidade branca.

No balcão, os clientes habituais podem, com "anisette", comer espetadas e "merguez", cuja receita ancestral foi transmitida a Charly por Bonniche, o talhante de Bab El Oued. A ementa esclarece que a tigela de Loubia (feijões) é "oferecida aos argelinos e por vezes aos de Orã e aos tunisinos". A reputação de Charly ultrapassou rapidamente a comunidade dos "pieds-noirs". Os franceses de França seduzidos pelo ambiente e pela qualidade da comida começam a afluir.

A "couscousmania" apodera-se de França. O movimento será amplificado pela chegada cada vez mais maciça de trabalhadores originários da Argélia mas também de Marrocos e da Tunísia. Tanto mais que, a partir de 1975, as leis sobre o reagrupamento familiar vão permitir-lhes mandar vir as famílias. As tascas tornam-se "verdadeiros" (pequenos) restaurantes, propriedade dos próprios, e acolhem doravante uma clientela cosmopolita, onde se misturam alegremente em comezainas o estudante "teso", o trabalhador imigrado ou o quadro.

Mohand Kaci acompanha o movimento. Em 1970, com Solange, a sua esposa normanda, cria um novo restaurante - Le Progrés Oriental, no 13º Bairro. Grande parte da sua clientela é europeia. O cuscuz é mais sofisticado. Acabaram os grandes pedaços de legumes metidos no caldo. O grão é também melhor trabalhado. Serge, o filho nascido em 1963, começa a ajudar os pais.

Servido nas cantinas da escola

Progressivamente, o cuscuz entra em concorrência com os pratos tradicionais. Os restaurantes propõem-no como prato do dia. Também o vemos chegar às cantinas, plebiscitado pelas crianças das escolas. Por vezes é um pouco básico. "A primeira vez que a cantina da escola nos serviu cuscuz, fartei-me de rir", recorda Andrée Zana-Murat. A canção mete o bedelho. "Faz-me cuscuz, querida", trauteia Bob Azzam.

Hoje em dia, segundo uma sondagem publicada no número de Junho de "Elle à table", o cuscuz surge em quarta posição na lista dos pratos preferidos pelos franceses, muito perto dos mexilhões à marinheira, do fricassé de vitela e do cozido ["pot ao feau"], mas muito à frente da chucrute, do bife com batatas fritas ou da "ratatouille" [guisado de legumes provençal, originário de Nice]. Os franceses consumirão cerca de 75 mil toneladas de cuscuz por ano.

Porque é que o cuscuz está assim tão bem implantado em França? Claude Driguès, que sucedeu a seu tio Charly e preside actualmente aos destinos de dois restaurantes, Chez Charly e Le Sud, boulevard Gouvion-Saint-Cyr, no 17º Bairro de Paris, não gasta muito tempo a procurar a resposta. "Porquê? Porque é bom!" E acrescenta: "É também um prato festivo, de estilo orgulhoso, e, enfim, é um prato completo com as três componentes imutáveis: sêmola, legumes e carne".

Mas para todos, o melhor, quer dizer, "o único cuscuz" é, à partida, o de sua avó, quer dizer, o da mãe. Em todo o caso, um prato feminino. "Os homens, caçamo-los!", brinca hoje Khadiga, que, com sua irmã Faridah, dirige a cozinha do Tobsil, um dos melhores restaurantes de Marraquexe. É preciso ouvir esta mulher pequenina, tão larga como alta, falar, com um sorriso nos olhos, da sua maneira de preparar os grãos de cuscuz e dos segredos que ela só transmitirá a seus filhos.

A indústria percebeu rapidamente os proveitos que poderia tirar deste entusiasmo. Mais uma vez, os "pieds-noirs" deram o lamiré. Fundada em 1853, em Blida (Argélia), a casa Ricci concebeu pela primeira vez secar por ventilação artificial um grão sempre enrolado e peneirado à mão. Criada em 1907 por Jean-Baptiste e Anaïs Ferrero, a casa do mesmo nome põe a funcionar, em 1953, a primeira enroladora mecânica de grão. Em 1973, as duas empresas, associadas por acção de uma casa da Argélia, Cauchy, fundem-se e dão lugar à Ferico.

O grupo produz actualmente dez toneladas de cuscuz por hora e exporta para mais de 45 países. Recentemente, os dirigentes da Ferico, pela primeira vez desde 1962, deslocaram-se à Argélia, para onde esperam exportar um dia. Eis que, para estar de acordo com o gosto dominante, a empresa colocou no mercado um cuscuz de "trigo completamente biológico".

Reverso da medalha: cerca de 30 mil caixas de cuscuz em conserva, com caldo e carne separados, são também vendidos todos os anos no Hexágono. Os apreciadores, sem falar nos puristas, podem ficar tão horrorizados com estes sucedâneos, como ficam com os "taboulés" já preparados, ácidos e engelhados.

Esqueçamos o sacrilégio. Mais vale demorarmo-nos em certos locais onde o cuscuz recebeu as suas cartas de nobreza. Por exemplo, no restaurante de Alain Passard que, no seu três estrelas da rua Varenne (Paris), o Arpège, ousa uma "jardineira de legumes, fina sêmola com azeite de Argan", depois de ter inventado uma "harissa [condimento magrebino picantíssimo] e cenourinhas num leve cuscuz". Uma grande arte que fez o crítico gastronómico do "Le Monde", Jean-Pierre Quélin, escrever: "Porquê tratar por tu o diabo, quando se pode, de forma tão cómoda, privar com os anjos?"

Raymond Haddad, o patrão de La Boule rouge, situado no 9º Bairro de Paris, pratica um ecumenismo reconfortante. "Aqui, há gente da metrópole, norte-africanos e israelitas". Enrico Macias fez deste restaurante a sua cantina. Conta-se que o cantor ficou muito aborrecido no dia em que Raymond contratou um chefe francês para servir pratos regionais. "Raymond, serve-me comida normal, se faz favor!"

Agora, a eternidade. Quando Mohand Kaci morreu em 2002, o seu filho Serge já tinha tomado conta do negócio. Aberto em 1990, L'Oriental, o seu restaurante da rua des Martyrs, no 18º Bairro, oferece um cuscuz clássico. Longe das grandes sofisticações, ele é, segundo os clientes habituais, um dos melhores da capital. "Depois do de minha avó", gostaria de acrescentar o autor destas linhas.

Exclusivo PÚBLICO/"Le Monde"

Delícias Universais-Pizza

A Odisseia da Pizza
Por PHILIPPE BROUSSARD
Público, Segunda-feira, 16 de Agosto de 2004

Este homem é um artista. É preciso vê-lo em acção ao princípio da noite, quando os clientes afluem à sua pizzaria de Nápoles, "Add'o Guaglione". Cá fora, o bairro de Fuorigrotta é só barulho, calor, engarrafamentos; resmunga de impaciência à medida que se aproxima a hora de jantar. E Salvatore, de "t-shirt" e avental branco, apressa-se junto do seu forno de lenha, como se tivesse que, sozinho, satisfazer o apetite insaciável do povo napolitano.

Nas suas mãos experientes, a bola de massa é triturada, amassada, tendida, transformando-se numa bolacha que ele faz girar na ponta dos dedos, deposita no balcão de mármore e enfeita com todo o tipo de ingredientes: tomate, presunto, mozarela... Em 20 segundos está pronta, o forno acolhe-a. Em menos de três minutos estará no prato do cliente ou numa caixa para levar. E a seguinte já está na calha, macia, perfumada, rica de mil sabores de Itália.

Aos 43 anos, Salvatore Urzitelli contabiliza cerca de 30 mil pizzas no activo. E todas segundo as regras da arte: cozidas em forno de lenha (420º), guarnecidas com produtos locais, com uma massa levedada pelo menos com oito a nove horas de antecedência (de véspera ou, idealmente, antevéspera). Não lhe falem das regras internacionais, dessas pizzas apátridas, idênticas em Tóquio, Washington e Toronto! E nem pensar diante dele em evocar o inimigo supremo: a ultracongelação. Salvatore não é desse mundo. Salvatore vive em Nápoles. E em Nápoles, a cidade das 400 pizzarias, a verdadeira pizza é questão de orgulho e de História.

"Reparem!", lança indicando o aparelho de televisão. Um miúdo de 12 anos surge no ecrã: Ciro, seu filho, filmado durante uma emissão da RAI. Ele também maneja a massa como um malabarista de pratos. Um dia, está escrito, ajudará o pai. Os seus títulos de glória estão já encaixilhados à esquerda do forno: Óscares, Olimpíadas, campeonatos de pizza da Europa ou do mundo... E, no entanto, Salvatore nunca saiu de Fuorigrotta. "Um bom 'pizzaiolo' fica em Nápoles", garante. Noutros tempos alguns, no entanto, partiram. Para os Estados Unidos, para França... E se este prato é hoje universal, se "sites" na Internet lhe são dedicados em todo o mundo (pizza.it na Itália) a eles o deve.

Há muitas dúvidas: um tal destino suscita discussão. A própria palavra "pizza" divide os etimologistas. Uma primeira hipótese remete-nos para o ano de 997: em latim medieval, esta palavra designava uma fogaça ou uma bolacha. Outra pista mais antiga: a do grego "pitta" em referência ao pão com o mesmo nome. No século IX antes de Cristo, os gregos não tinham o hábito de aquecer e de o enriquecer com toda a espécie de guarnições? Algumas centenas de anos mais tarde, o poeta latino Virgílio evoca, por seu lado, estes discos de pão guarnecidos com ervas aromáticas e, por vezes, queijo fresco. Segundo ele, os napolitanos pelavam-se por isso. Sim, os napolitanos: ao escrever sobre o tema, voltamos sempre à sua mesa. Mas com que certezas?

É melhor voltarmo-nos para uma especialista: Sylvie Sanchez, investigadora associada do Centro de Estudos Transdisciplinares de Sociologia, Antropologia e História (Paris). Ela dedicou uma tese de mais de 600 páginas à pizza. Este estudo, que deverá ser publicado no final do ano, leva as investigações tão longe quanto possível, mas abstendo-se de tirar conclusões. "Não é preciso entusiasmarmo-nos a procurar uma origem muito longínqua", insiste a antropóloga. Assim, voltemos a Nápoles.

A dos ricos é doce, a dos pobres é salgada

Segundo Sylvie Sanchez, a palavra "pizza" é utilizada no dialecto local desde 1535 e em italiano desde 1549. E existem duas espécies: a dos ricos é doce e guarnecida com amêndoas; a dos pobres é salgada, provavelmente untada com azeite ou banha e o seu mérito principal é matar a fome. A primeira saboreia-se sentado, à maneira da pastelaria fina. A segunda, comprada aos vendedores ambulantes, engole-se de pé, na rua; dobra-se em quatro, "em portefólio", diz-se na região. Evidentemente que não se fala ainda de tomate, uma vez que este fruto, trazido das Américas no início do século XVI e durante muito tempo considerado um veneno, demorou dois séculos a impor-se na Europa.

No século XVIII a cidade tinha uma vintena de pizzarias. Estas estavam equipadas com pequenas mesas de mármore para uso dos clientes que dispunham de meios para lá comer. A pizza que lhes era servida era a "mastunicola", branca (sem tomate), ornamentada com gordura, queijo e basílico. Mesmo as "cabeças coroadas" eram doidas por ela: não se diz que os reis de Nápoles, Ferdinando I de Burbon e o seu sucessor Ferdinando II, consideravam-na a seu gosto?

Apesar disso foi preciso esperar pelo século XIX para que nascesse a versão moderna da pizza. Sempre em Nápoles, é claro, e graças a um aliado inesperado: o tomate. Enfim liberto da sua má reputação, passa a ser cultivado nas encostas do Vesúvio. No país das pizzas a hora é histórica: a "vermelha" (rossa) vai suplantar a "branca" (bianca)...

"Nessa época é ainda um prato de pobres, feito para alimentar as famílias numerosas", relembra entretanto o jornalista Mario Foliero, outro especialista no tema. Os vendedores ambulantes fornecem-se nas padarias ou pizzarias e depois percorrem as ruas e as colinas até à beira-mar. Os habitantes de modestos recursos, locatários dos rés-do-chão dos prédios têm por vezes direito a crédito; pagam com uma semana de atraso aquilo que se convencionou chamar a "pizza de oito dias". Os indigentes, esses contentam-se com os "corniciones", os rebordos da massa que os burgueses, saciados, deixam no prato quando se levantam da mesa.

Então existem vários tipos de pizzas na Itália. As guarnições e os modos de cozinhar variam conforme as regiões. Mas é mesmo em Nápoles que a História se escreve, sob o olhar guloso dos estrangeiros de passagem. No "Le Corricolo" (1843), Alexandre Dumas vê toda a riqueza de uma cidade única: "À primeira vista, a pizza parece um prato simples; depois de examinada, é um prato composto. A pizza é de azeite, a pizza é de presunto, a pizza é de banha, a pizza é de queijo, a pizza é de tomate, a pizza é de peixe miúdo; é o termómetro gastronómico do mercado; faz subir ou baixar os preços, de acordo com os preços correntes dos ingredientes acima referidos, segundo a abundância ou a escassez do ano."

Algumas décadas depois da estada de Dumas na Campânia, em Junho de 1889, a "vermelha" liga definitivamente o seu destino ao do país. O rei Umberto I de Sabóia, nortista empenhado em conquistar os napolitanos para a causa de uma Itália unificada, procura ganhar os favores do povo. Quando a sua mulher Margarida o acompanha a Nápoles, ele pede a um famoso "pizzaiolo", Raffaele Esposito, que lhe prepare um repasto.

Este confeccionou uma "marinara" (azeite e orégãos) e uma "mastunicola". Sua mulher, Rosa, imagina uma terceira com as cores do país: vermelho (tomate), branco (mozarela), verde (basílico). A rainha gostou tanto que Esposito propôs-se baptizá-la como "pizza Margherita". A lenda estava lançada. E com ela uma evolução de identidade importante: com o correr do tempo, a pizza - e a "Margherita" mais do que qualquer outra - será a marca de unidade nacional. O resto da aventura será fruto da emigração e depois da mundialização...

Americanização e abandono do alho

Tudo começa nos finais do século XIX com as primeiras grandes vagas de partidas para o estrangeiro. Para a pizza é o começo de uma odisseia. Graças aos napolitanos, está visto. Os que escolheram os Estados Unidos impõem-na primeiro nos bairros italianos das metrópoles do Norte, depois, pouco a pouco, iniciam os autóctones. A primeira pizzaria nova-iorquina abre em 1905; pratica a venda para fora, tal como no seu país. Com o correr do tempo, a pizza estende a sua zona de influência, americaniza-se, diversifica-se, renuncia aos sabores muito marcados, em particular ao do alho. Em Chicago, ganha em espessura. Daí o aparecimento, em 1943, da "pizza estilo Chicago", muito distinta da sua prima da Campânia.

Depois da Segunda Guerra Mundial e do regresso aos Estados Unidos dos GI estacionados no sul de Itália, é o tempo da verdadeira popularidade. A América, esquecida dos pioneiros napolitanos, faz dela um prato nacional. Nos bairros de escritórios, os empregados comem-na à hora do almoço. Os adolescentes plebiscitam-na na rua: em 1956, ultrapassa o cachorro-quente na classificação das preferências culinárias. Em 1968, já um autêntico símbolo, ultrapassa o hambúrguer! E o "business" continua: em 1958, dois irmãos, Frank e Dan Carney, abrem um quiosque de pizzas em Wichita (Kansas). Dez anos mais tarde, contam com 310. É hoje o império Pizza Hut, ou seja, 12 mil pontos de venda em todo o mundo!

Em França, a bela napolitana chegou a Marselha de forma bem mais modesta, por mar ou de comboio, com os trabalhadores vindos da Campânia nos finais do século XIX. Nos primeiros tempos, comeram-na "branca" nas tabernas do Vieux-Port, a que se seguiu a "vermelha" guarnecida com tomates provençais e cozida em forno de lenha. É igualmente em Marselha que será posto a funcionar, em 1963, o primeiro "camião pizza". O seu inventor, Jean Maritan, cognominado "Jeannot le pizzaiolo", relançará assim uma tradição, ela também napolitana, de venda para levar.

Os Estados Unidos e a França não são, evidentemente, uma excepção. Na segunda metade do século XX, prossegue a expansão internacional, acompanhando a curva da emigração transalpina. Em cem anos, 26 milhões de italianos deixaram o "bel paese". Entre eles, um bom número de "pizzaiolos" de profissão ou de circunstância mais ou menos preocupados com os hábitos sociais. Ajudados pela mundialização, o seu prato preferido ganha novos territórios: o Japão nos anos 70, o ex-bloco soviético 15 anos mais tarde e, finalmente, a China.

E Nápoles, no meio disto tudo? Quem sabe, em Sydney ou em Vladivostok, o papel que ela desempenhou neste êxito? A própria cidade, como que subjugada por uma espécie de modéstia fatalista, nunca procurou reivindicar demasiado esta longínqua mas inegável maternidade. Apenas a pizzaria "Brandi", aquela onde outrora foi inventada a célebre "margherita", soube realmente tirar daí proveito: continua a existir, no coração da cidade, e emprega uma trintena de pessoas.

"A imagem da profissão mudou"

Desde há uns tempos, a situação parece estar a evoluir. Na Itália, como noutros países, a hora é de defesa do património. Nápoles defende a sua pizza e deseja que ela seja objecto de uma denominação de origem controlada (DOC) a nível europeu. Desde os ingredientes de base, ao modo de cozedura, está já tudo escrito preto no branco e servido como tal sob a designação de "pizza DOC" num dos estabelecimentos mais frequentados da beira-mar, "Canta Napoli".

Para melhor assegurar a preservação do "savoir faire" local, alguns outros responsáveis por pizzarias conhecidas - entre os quais Salvatore, o campeão de Fuorigrotta - juntaram-se na associação "Margherita Regina". Entre as suas prioridades encontra-se a formação de "pizzaiolos".

É verdade que a profissão, desprezada durante muito tempo, tem futuro. Os bons profissionais são muito procurados, tanto em Itália como no estrangeiro, sobretudo se são napolitanos. "Os melhores podem ganhar mais de três mil euros por mês.", garante Carmine De Pompeis, dono do "Canta Napoli". "A imagem da profissão mudou", confirma Mario Arino, patrão de uma pizzaria de sucesso, "La Caraffa".

O presidente da associação, Gaetano Esposito, é outra estrela dos fornos de lenha. Aos 60 anos, este homem baixo de face cavada percorreu o mundo, participou em numerosas emissões televisivas e preparou "margheritas" para todo o tipo de celebridades, desde o realizador Vittorio De Sica ao Presidente da República Oscar Luigi Scalfaro... "Chega um momento em que o 'pizzaiolo', tal como o cigano, sente que deve partir", escreveu num livro de recordações. Mas é no seu restaurante, nas colinas de Nápoles, que Gaetano o "globe-trotter" está no seu elemento. A sua pizzaria chama-se "l'Arte de la Pizza". Ouvindo-o falar, compreende-se depressa o essencial: esta arte não se limita à cozinha; é também a arte de bem viver e do amor a uma cidade.

Exclusivo PÚBLICO/"Le Monde"
Amanhã: Cuscuz à conquista do mundo

destaque: Em cem anos, 26 milhões de italianos deixaram o "bel paese". Entre eles, um bom número de "pizzaiolos" de profissão ou de circunstância mais ou menos preocupados com os hábitos sociais. Ajudados pela mundialização, o seu prato preferido ganha novos territórios: o Japão nos anos 70, o ex-bloco soviético 15 anos mais tarde e, finalmente, a China

A Origem das Espécies-02

UM CICLO PERPÉTUO DE Ascensões e Quedas
Por DAVID VON DREHLE
Público, Domingo, 15 de Agosto de 2004

Mas porque será então que os Estados Unidos não têm imensos pequenos partidos? Quando as duas principais forças mergulham na sua autodestruição periódica, porque será que não dispersam as suas clientelas como se fossem sementes? Porque não são as coisas mais como em Itália? Imagine-se uma América com um partido verde robusto, um partido dos trabalhadores musculado, com o Partido do Direito à Vida representado no Congresso, ao lado do Partido Liberal de Hollywood, do Partido das Celebridades Amantes de Armas e do Partido dos Demagogos (onde os acima citados Limbaugh e Moore poderiam finalmente fazer as pazes, sentados frente a frente a comer um gelado).

Um cientista político poderia explicar isto com uma densa e profunda comunicação mencionando a "teoria da escolha racional e o equilíbrio de Nash", juntando-lhe equações matemáticas multivariáveis. E mostraria como é que o colégio eleitoral e a instituição do Senado se combinam para reforçar o sistema de dois partidos à custa da representação proporcional, etc., etc., etc.

Mas, uma vez que não compreendo estas teorias, prefiro dizer: porque somos americanos. Charles de Gaulle perguntou uma vez por que é que alguém poderia pensar que a França seria capaz de se unir sob um único partido, quando o país tem 200 variedades de queijo. Nos Estados Unidos, as coisas são mais simples. O país deu ao mundo apenas duas variedades de queijo: um em que as fatias estão embaladas individualmente e outro em que as fatias estão juntas.

A escolha simples, entre "isto" ou "aquilo", tem moldado significativamente a política norte-americana. O exemplo mais óbvio é Norte contra Sul. Foi ao longo desta linha que o país travou a sua guerra mais sangrenta, e a questão persiste, de formas importantes. Mas há outras: governo grande contra governo pequeno, impostos altos contra impostos baixos, cidade contra campo, interesses corporativos contra populismo. E outra a que poderia chamar-se "bem-comportado contra atrevido", que na maior parte da história americana teve que ver com uma discussão sobre álcool, mas que nas últimas décadas respeita principalmente a pontos de vista diferentes sobre sexo.

Até há uma questão recorrente, pró-francês contra antifrancês, que se traduz com frequência em internacionalista contra isolacionista. Os hamiltonianos adoravam insinuar que Jefferson era uma emanação dos franceses. Mais de dois séculos depois, o comité nacional republicano faz circular notas à comunicação social observando que John Kerry tem familiares franceses, e o líder dos republicanos na Câmara dos Representantes, Tom DeLay, às vezes começa os seus discursos dizendo: "Boa tarde, ou, como John Kerry poderia dizer, 'bonjour'."

O sistema de dois partidos acabou por revelar-se um instrumento altamente flexível para confrontar estas disputas. Os partidos tentam formar coligações e agendas vitoriosas ao tomarem partido nestes diversos debates perenes, muito à maneira dos capitães de equipa que, no recreio, escolhem os colegas um a um. Os federalistas, por exemplo, escolheram o Norte, um governo grande, impostos altos, a cidade, as empresas, o lado bem-comportado e a posição antifrancesa. E os jeffersonianos alinharam-se do outro lado: Sul, pequeno, baixos, populistas, atrevidos e pró. E o jogo começou assim.

Mas é aqui que as coisas se tornam complicadas. A maior parte das pessoas, e a maior parte das facções, que apoiam um partido não estão com cada um dos elementos da linha partidária. Se tivessem a hipótese, provavelmente escolheriam alguns da coluna A e alguns da coluna B. Mas preferem um partido específico numa altura específica porque, para eles, uma questão específica de agenda significa mais do que todas as outras. À medida que as circunstâncias mudam, outros pontos da agenda aumentam de importância. Argumentos que estavam escondidos surgem de súbito à superfície. O que era menor torna-se importante - e, de repente, em vez de unidade partidária tem-se desintegração partidária. De forma simplificada, caricatural, eis como as coisas se passaram.

Depois do colapso dos federalistas, os jeffersonianos pareciam ter tudo a seu favor. É verdade, não sabiam como se chamar. Primeiro era republicanos, depois republicanos-democratas e, finalmente, com o triunfo ferozmente populista de Jackson, assentaram no simples democratas.

Inicialmente, a coligação em que o partido assentava produziu êxito após êxito. O internacionalismo pró-francês de Jefferson garantiu relações suficientemente amigáveis para que um Napoleão desesperadamente à procura de dinheiro se tenha voltado para os Estados Unidos, quando quis vender a Louisiana. E um governo central fraco estava em sintonia com a natureza anárquica do Oeste - pelo menos da perspectiva caucasiana. Uma nação recém-nascida, mal cosida ao longo da costa do Atlântico, tornou-se, em meio século, uma potência hemisférica com poderes para exercer a sua influência sobre o continente.

O êxito do Partido Democrata atraiu eleitores. Mas, à medida que mais pessoas apoiavam os democratas, diminuía a probabilidade de estarem todas de acordo. A opção jeffersoniana por uma expansão levemente governada mudou a agenda americana, e também o equilíbrio de interesses no partido. Por exemplo: quando pioneiros exploradores das fronteiras conduziram Jackson ao poder e depois entraram em Washington a bater no chão com as botas lamacentas, exigindo a sua recompensa, muitos democratas começaram a ter medo da turba. Abandonaram a coligação democrata e formaram o Partido Whig, assim designado em honra dos antimonárquicos de Inglaterra. Estabelecendo a sua própria coligação, recorreram a alguns restos da política hamiltoniana, promovendo programas governamentais para construir caminhos-de-ferro e canais, tudo financiado por tarifas altamente proteccionistas.

Mais importante, a escravatura tornou-se uma questão que dividiu os democratas. No tempo de Jefferson, o grupo defensor de um governo fraco conseguia coexistir (às vezes dificilmente) com os partidários do Sul, ao considerar o debate sobre a escravatura uma questão dos direitos dos estados. "Esta União pode existir para sempre dividida em estados livres e com escravos, tal como os nossos pais a fizeram", afirmou o democrata do Norte Stephen Douglas, exprimindo este ponto de vista. A expansão para o Oeste, contudo, dividiu esta instável coligação. A questão tornou-se outra: deveria a escravatura ser alargada a outros territórios? Mas uma coisa era os democratas do Norte tolerarem a escravatura onde ela existia há gerações e outra era advogarem a sua expansão. A sua relutância só fez com que os seus partidários do Sul se tornassem mais irredutíveis na sua posição.

O resultado: a eleição de 1860. Os democratas dividiram-se numa facção do Norte e noutra do Sul, cada uma nomeando o seu candidato presidencial. "O Partido Democrata dividiu-se em dois", escreveu recentemente o jornalista Jules Witcover na sua história do partido, "sucumbindo por fim à realidade de que estava dividido entre uma ala sulista que defendia a escravatura e insistia em impô-la a todo o partido, e uma ala nortista que não estava mais disposta a permitir ao Sul que o fizesse." Isto abriu a porta da Casa Branca a Abraham Lincoln, o primeiro Presidente republicano. Mais uma vez, um grande partido tinha-se desmoronado - mesmo a tempo.

Vencedores da corrida eleitoral de 1860, os republicanos de Lincoln só tinham seis anos: formaram-se em 1854 a partir dos "whigs". Também estes tinham caído vítimas do drama crescente da escravatura. "Quando a questão da escravatura se tornou proeminente - explicou o historiador Lewis L. Gould no seu livro sobre os republicanos -, os "whigs" viram-se cada vez mais divididos entre Norte e Sul. A sua plataforma qualificava a escravatura como um assunto perigoso... mas dizia pouco mais."

Os republicanos casaram o hamiltonismo com o abolicionismo e apresentaram uma proposta inteiramente a favor de um governo forte. Acreditavam na união nacional acima dos direitos dos estados. Acreditavam em programas governamentais para organizar e desenvolver a fronteira conquistada. Mesmo enquanto travava uma guerra contra a Confederação rebelde, Lincoln assinou alguma da mais importante legislação sobre infra-estruturas e obras públicas da história americana, toda aprovada pelo Congresso republicano - leis a autorizarem o caminho-de-ferro transcontinental e a concederem o direito de passagem; a encorajaram a colonização das planícies desertas; um programa para educar os colonos em escolas que concediam terras; e mais.

Este novo partido apoiava impostos altos para pagar a sua agenda ambiciosa. O Grand Old Party aprovou o primeiro imposto federal sobre rendimentos, instaurado com carácter temporário para pagar a Guerra Civil. E apoiou taxas elevadas sobre produtos importados. A agenda fazia sentido no contexto da visão de Hamilton dos Estados Unidos como grande potência industrial e financeira. Desde o início, o potencial económico dos EUA era tremendo, mas no primeiro século era um potencial ainda a tomar forma. As empresas norte-americanas precisavam de ajuda e protecção do governo face às economias mais fortes da Grã-Bretanha e da Europa continental. Precisavam de um sistema bancário nacional. Precisavam de uma rede de transportes. Precisavam de tarifas protectoras para impedir os mercados domésticos de serem inundados com bens estrangeiros de baixo custo e alta qualidade.

A princípio, a coligação republicana obteve êxito a seguir a êxito. A União foi preservada, os escravos libertados, os oceanos ligados pela via férrea do progresso. Os Estados Unidos viveram uma explosão de actividade económica sem paralelo com qualquer outra parte do mundo, personificada não só por Rockfeller, Carnegie e Morgan, mas também por Post e Kellogg, Borden e Hershey, Heinz e Campbell, Sears e Woolworth. Tinha nascido a economia de consumo.

Mas tal como a expansão jeffersoniana para o Oeste tinha extremado a questão dos escravos, esta explosão hamiltoniana de desenvolvimento patrocinado pelo governo mudou a agenda americana, e com ela o equilíbrio de interesses no Partido Republicano. Por exemplo, o balanço sangrento da Guerra Civil e o caos da reconstrução reavivaram os sentimentos antigoverno e a favor dos direitos dos estados no Norte, reforçando deste modo os democratas.

Mais importante, as empresas norte-americanas tinham-se tornado um colosso. Eram, aliás, tão poderosas que algumas das mesmas pessoas que tinham apoiado a protecção governamental das empresas agora começavam a acreditar que o governo devia proteger o povo dessas empresas. Uma dessas pessoas, Theodore Roosevelt, tornou-se Presidente em 1901, após o assassinato de William McKinley, e durante os 11 anos seguintes Roosevelt dividiu o Partido Republicano. Continuou a ver um governo robusto como uma força de progresso nacional, alienando assim aqueles que, na coligação republicana, tinham o seu maior compromisso para com as grandes empresas.

Em 1908, após uma presidência em que confrontou grandes interesses económicos, lançou grandes obras públicas e conservou terrenos na posse do governo federal, Roosevelt entregou a Casa Branca ao seu amigo William H. Taft. Mas Theodore Roosevelt sentiu que Taft estava a devolver o partido aos plutocratas, e, após quatro anos de inquieta reforma, regressou, para desafiar Taft, em 1912. Obrigados a escolher entre eles, os republicanos optaram pela via mais conservadora. Nomearam Taft.

"Na sua essência, 1912 introduziu um conflito entre idealismo progressista... e valores conservadores", escreveu James Chace na sua recente história sobre essa eleição. "A amizade desfeita entre Taft e Roosevelt infligiu feridas ao Partido Republicano que nunca foram saradas."

A divisão abriu caminho a que os democratas agarrassem a causa do progressismo. Já era, afinal, hora de os democratas se reinventarem. O ideal jeffersoniano assente no camponês estava a desaparecer por entre a azáfama do futuro urbano e industrial. Por isso o partido encontrou um novo futuro nas cidades, entre o povo trabalhador.

E a grande roda voltou a girar.

Desta vez, não houve um corte violento. Aconteceu aos solavancos. O democrata Woodrow Wilson, eleito em 1912 graças à divisão republicana, não era nenhum Abraham Lincoln - a sua presidência foi uma confusão, tal como era o seu partido. Não foi inteiramente por culpa dele; alguma responsabilidade cabe a William Jennings Bryan, o anterior líder do Partido Democrata, que depositou no populismo as esperanças partidárias. Este movimento, forte em pequenas cidades puritanas, era principalmente a propósito de dinheiro - os populistas queriam mais dinheiro em circulação -, mas atraiu também um grande número de "bem-comportados" para o lado democrata e deixou o partido profundamente dividido quanto à Lei Seca.

Grande parte do problema era, porém, atribuível a Wilson. Embora se apresentasse como progressista, em questões raciais era um homem das cavernas e, politicamente falando, não tinha apelo e era inábil. A liderança desigual de Wilson cedeu a década de 1920 a presidentes republicanos, mas tratava-se afinal de um apogeu falso para os conservadores taftianos. Quando a Grande Depressão chegou, os republicanos foram um desastre, e os democratas recuperaram a supremacia na política americana. Nesta altura, os partidos tinham-se desmoronado e refeito de tal modo que tinham mudado de posições quase completamente.

Os democratas do New Deal de 1932 foram ao grande menu americano das opções e escolheram: governo forte, impostos altos, populismo, atrevimento e "pró-francês". Mas o trauma da depressão foi tão intenso que Franklin Roosevelt foi capaz de arrastar para a mesma coligação eleitores do Norte e do Sul - numa plataforma antigrandes interesses. Através do bálsamo da assistência governamental, foi capaz de manter juntos progressistas e fundamentalistas, numa aliança instável. Franklin Roosevelt deu aos trabalhadores o direito de se sindicalizarem e de terem subsídio de desemprego. Mas também conseguiu manter ao seu lado empresários moderados, dizendo-lhes que os estava a salvar do destino do socialismo, muito pior. Nenhum outro Presidente teve mais ou mais estranhos aliados.

O ciclo político era absolutamente familiar: a princípio, a coligação partidária produziu êxito atrás de êxito. A Depressão chegou ao fim. O fascismo foi derrotado. Leis laborais e de apoio aos combatentes ajudaram a produzir uma classe média robusta. A Segurança Social aliviou o medo de envelhecer. Uma Europa Ocidental devastada pela guerra aceitou a liderança norte-americana para formar a aliança mais próspera do mundo.

Mas esta reforma assente num governo forte mudou a agenda americana, e com ela o equilíbrio de interesses no Partido Democrata. Por exemplo, muitos dos agricultores e operários que tinham apoiado o New Deal como resposta à miséria ficaram chocados, ao verem-se, quando os "bons tempos" regressaram, ao lado de manifestantes, pacifistas, "beatniks", feministas e "hippies".

Mais importante, quando as crises dos anos 30 e 40 ficaram para trás, o país viu-se face a face com a desde há muito incómoda questão da discriminação racial. Sem a Depressão ou a guerra para manter unidos os democratas, já não era possível acomodar juntos segregacionistas e liberais. Em 1948, o jovem presidente da câmara de Minneapolis, Hubert Humphrey, conquistou a convenção democrata e convenceu-a a abraçar as causas dos direitos cívicos. Quando isso aconteceu, um grupo irado de democratas do Sul saltou do partido e, em protesto, nomeou o governador da Carolina do Sul, Strom Thurmond, para concorrer a Presidente.

A total desagregação da coligação do New Deal levou tempo, mas em 1964 Thurmond já tinha abandonado o Partido Democrata e, durante os vinte anos seguintes, milhões de sulistas seguiram-no. A segregação morreu, mas o ressentimento em relação a Washington, D.C., perdurou. Quando nos anos 80 o republicano Ronald Reagan surgiu a pregar que "O governo não é uma solução para o nosso problema, o governo é o problema", conseguiu uma vitória eleitoral esmagadora só comparável à de Franklin Roosevelt em 1936. O Sul transformou-se num bastião do partido de Lincoln.

Ao fim de dois séculos a congregar coligações, a vê-las desintegrar-se, a reunir de novo as pélas, os partidos norte-americanos chegaram aos dias de hoje um pouco tontos. Os republicanos transformaram-se no partido dos impostos baixos e do governo limitado, no partido de Reagan, defendendo uma agenda que é conservadora em termos fiscais e morais - impostos baixos e todos bem- comportados -, mas mais afirmativa internacionalmente do que em muitas ocasiões no passado.

E parece ter funcionado. Em anos recentes, os republicanos têm tido um maior nível de identificação partidária - traduzindo: mais pessoas dizem que são republicanas do que em qualquer outro período das sondagens realizadas pela Gallup; os republicanos estão a par com os democratas. O seu partido controla a Casa Branca e o Congresso e uma maioria das legislaturas estaduais.

É o começo de um longo reinado? Ou está o partido à beira de se tornar demasiado grande? Se se escutarem com atenção os debates internos dos republicanos, é possível distinguir muita tensão entre os bem-comportados, com a sua agenda definidora de uma moralidade, e o segmento dos eleitores partidários de um governo pequeno que quer que os deixem em paz. E mesmo na congregação do "governo pequeno" existe tensão entre os defensores de impostos baixos e os que querem orçamentos equilibrados.

É previsível que os dois partidos continuem a desfazer-se um ao outro numa base regular. Isso é uma evidência de um sistema suficientemente forte para ser relativamente estável, e ao mesmo tempo suficientemente fraco para não causar o tipo de danos catastróficos que temos visto em tiranias à volta do mundo.

Ao contrário de Alexander Hamilton, Thomas Jefferson viveu o suficiente para ver que as lutas partidárias da sua juventude significavam pouco em comparação com os valores que persistem: concórdia, confiança e respeito mútuo. Nos seus anos de reforma, Jefferson renovou a sua amizade com o federalista John Adams. As velhas divisões foram reparadas, com os dois homens a trocarem cartas calorosas e sábias, reflectindo em tudo o que tinha acontecido desde que tinham trabalhado juntos na Declaração de Independência. Numa dessas coincidências incríveis que às vezes acontecem ao argumentista da História, Adams morreu no Massachusetts precisamente 50 anos depois de ter assinado o documento crucial. Foi em 4 de Julho de 1826. Dizem que as suas últimas palavras foram: "Thomas Jefferson vive." O espírito estava certo, embora as palavras estivessem erradas, porque Jefferson tinha morrido nessa mesma manhã na Virgínia.

"Agimos em perfeita harmonia, numa procura longa e árdua da nossa liberdade e independência", escreveu Jefferson a Adams em 1813. "Foi adquirida uma Constituição que, embora nenhum de nós julgue perfeita, ambos consideramos competente para tornar os nossos concidadãos os mais felizes e seguros de todos os aqueles sobre os quais o sol já brilhou. Se não pensamos exactamente o mesmo quanto às suas imperfeições, isso importa pouco ao nosso país que, depois de lhe devotarmos vidas longas e trabalho desinteressado, entregámos em vida aos nossos sucessores, que serão capazes de tomar conta dele, e de si mesmos."

Se não pensamos exactamente da mesma maneira... pouco interessa. Brilhante. Mais uma coisa a favor dos tão denegridos partidos americanos. De tempos a tempos, produzem líderes destes. Não com tanta frequência como gostaríamos, é certo. Mas, até agora, com a frequência certa.

© PÚBLICO/"The Washington Post"

Antigamente, a Escola... (I)

Por JOÃO BÉNARD DA COSTA
Público, Sexta-feira, 20 de Agosto de 2004

Não, antigamente a escola não era risonha e franca, como no pré-histórico poema ("O Estudante Alsaciano") que, em versão portuguesa, aprendi com a minha Avó e galhardamente recitava - ao que me contaram - empoleirado num banco do Jardim da Estrela, para pasmo dos basbaques e vergonha da minha Mãe, que me surpreendeu, aos cinco anos, em tais preparos.

Nessa altura, ainda nem sequer sabia o que escola fosse. Quando soube, talvez usasse muitos adjectivos, mas não seguramente os que a associam ao riso e à franqueza. Mas descansem que não venho para ajustar contas nem para louvar o ensino de outras eras. Também não venho para execuções sumárias. Apenas me lembrei, por razões que mais adiante explicarei, que nunca disse de minha justiça sobre um personagem muito maltratado. Refiro-me ao dr. Sérvulo Correia, reitor do Liceu Camões entre o ano lectivo de 1950-51 e o de 74-75, a que não resistiu.

2 - 1950-51. Eu tinha de 15 para 16 anos e repetia a secção de ciências do 5º ano do liceu (actual 9º). Nesses tempos, até ao dito 5º ano (do 3º ao 5º, leiam do 7º ao 9º, e não vou prosseguir com actualizações), segundo a reforma de 1947 do ministro Pires de Lima (uma entre tantas), havia nove disciplinas, arrumadas entre letras e ciências. Letras: Português, Francês, Inglês e História. Ciências: Geografia, Ciências Naturais, Físico-Químicas, Matemática e Desenho. Se eu era bom aluno em letras, e por isso passei o exame do 5º ano com uma perna às costas e um 19 a História, péssimo era em ciências, sobretudo em Matemática e Desenho. Por isso chumbei e por isso fui condenado a repetir as cinco disciplinas das tais ciências.

Foi um ano negro, sem sombra de dúvida o ano mais negro da minha existência. Tinha grandes "buracos" nos horários (as horas em que os não-repetentes aprendiam letras) e vagueava entre casa e o liceu para repisar "matérias" que odiava. Lágrimas e suspiros? Pouco mais ou menos e não exagero muito. Se a palavra auto-estima já tivesse sido inventada, a minha andava muito por baixo, o que aos 16 anos não se recomenda.

O pior de tudo era o Desenho. Por dislexia congénita ou adquirida (havia a tese da fatalidade e a tese da preguiça ronhosa), eu nunca fui capaz de fazer um traço direito ou uma curva torta. Felizmente, os professores que tive do 1º ao 5º ano (o santo Mendes Costa e a beatíssima Maria Marinho, que, segundo as minhas contas, ainda é capaz de estar viva) sustentavam mais a tese do "coitadinho" do que a do "fiteiro" (tese paterna) e foram-me "passando", como nessa altura se dizia, mesmo se os meus "desenhos geométricos" se pareciam com bilhas "desenhadas à vista" e as bilhas com "geometria no espaço", não desfazendo na geometria e muito menos no espaço.

Tive a sorte (graças à citada reforma) de escapar ao exame do 3º ano, que, quando lá cheguei, retroactivou para o 2º. Mas do exame do 5º não escapei. Como já disse, não escapei mesmo.

Foi nesse ano, escolarmente bissexto, que Sérvulo Correia foi nomeado reitor do Camões. Vinha precedido pela fama de "animal feroz" (como diria o eng.º Sócrates) e não a deixou por mãos alheias. O liceu, habituado às cãs brancas e à bonomia de um simpático velhinho coxo, mudou do dia para a noite. Professores e alunos tremiam à passagem daquela cabeça, que, devido a uma acentuada dolicocefalia, logo lhe valeu o cognome de "cabeça de martelo". Eu tinha outras razões para tremer e, como ia pouco ao liceu, não me achei envolvido nas histórias dickensianas que se contavam.

Lá chegou a altura (ah, quando eu contar esse Verão de 51!) de fazer o segundo exame do 5º ano. Prova escrita, que dava direito a dispensar da oral, em caso de média de 16, e dava direito ao chumbo, se a média fosse inferior a 8,5. No ano anterior, ainda tinha chegado à oral. À segunda vez, nem isso. Uns dezitos e uns novezitos em quatro disciplinas não "taparam" o 2,8 (dois vírgula oito) em Desenho. Poupo-vos à descrição do meu estado de alma diante daquela pauta, em que a seguir ao meu nome estava encarnadamente escrito: "Reprovado". A simples ideia de imaginar (isso mesmo: "ideia de imaginar") que, no ano seguinte, tudo se passaria pela terceira vez punha-me a alma e o corpo em rebuçados desfeitos. À minha volta, colegas manifestavam-me a tradicional comiseração lusa: "Coitado do Bénard"; "Chumbou outra vez por causa do Desenho"; "Ele não tem culpa". Por aquelas horas, passou por ali o tal São Mendes Costa. Ao ver-me em tal estado, quis saber a razão. Logo lha disseram. Passaram mais horas (eu não me atrevia a voltar para casa e a enfrentar a família). Apareceu um contínuo, que, a mando do Senhor Reitor, me disse para ir ao gabinete dele. Lá fui, tão fora de esperar bem. Recebeu-me secamente e ordenou: "Vai para casa e diz ao teu pai que venha cá falar comigo."

O meu Pai, engripado e de cama, não foi. Pediu à minha Mãe para o fazer. Quando voltámos, o Senhor Reitor recebeu-nos logo. Não mandou sentar a Mãe. De pé, disse-lhe: "O professor de Desenho do seu filho informou-me da nota dele e da reprovação. Se ele é inapto, o encarregado de educação devia ter pedido dispensa dessa disciplina, como está previsto na lei. Agora, tudo é mais difícil. Mas ainda se pode tentar. O marido de V. Exa. deverá fazer um requerimento ao Senhor Ministro da Educação, solicitando a anulação da prova, o que lhe permitirá ter acesso ao exame oral. Não prometo nada - a decisão não me compete -, mas a informação que darei, com base no que o professor de Desenho me transmitiu, será favorável."

Transmitida a mensagem, o meu Pai mostrou-se muito céptico. Mas o prazo para recurso era curto e tentou. Fui levado a várias consultas médicas, onde ouvi o meu Pai fazer dele a tese do "coitadinho" (muito me espantou essa conversão, mas o amor de pai obriga a muito) enquanto eu me sumia pelo chão abaixo a cada novo exame, teórico e prático. Fez-se o requerimento.

Na dúvida do despacho, uma prima minha, bastante mais velha e que cursava Económico-Financeiras, deu-me explicações intensivas de Físico-Químicas e Matemática, num Julho ardente e inquietíssimo. Um belo dia, chegou a notícia. O ministro deferira o requerimento. Já em Agosto, "fui à oral". O mês de férias, que a minha prima sacrificou a cultivar-me minimamente em matérias em que eu era ignaro, fez o resto do milagre, bendita seja ela! Fui aprovado com 10 valores e deficiência a Matemática, o que era irrelevante para quem, obviamente, se destinava às letras. Dois anos depois, concluí o Liceu (no Pedro Nunes) com média final de 18.

3 - Na altura, abençoei o Prof. Mendes Costa, o Ministro e a Prima. Tinha toda a razão. Mas esqueci-me de abençoar o Reitor. Só alguns anos depois (quando eu próprio vivi, do outro lado, a época dos exames e o trabalho imenso que ela implicava para os examinadores) me dei conta do que o gesto dele teve de extraordinário. Em vez de juntar mais uma reprovação às estatísticas, com um aluno que nem sequer era aluno dele e que ele nem sequer conhecia, arrancou-me à autocomiseração e às lágrimas quentes, accionou os mecanismos legais que tanto os meus Pais como eu desconhecíamos, venceu o cepticismo paterno e anulou os efeitos devastadores de uma segunda reprovação consecutiva num adolescente em crise. Tivesse ele sido indiferente (como era legítimo e normal que fosse) e talvez o meu futuro fosse bem diferente.

Tive ocasião de lho dizer. Dez anos depois desse trágico 51, voltei ao Camões, como professor de História, Filosofia e Organização Política e Administrativa da Nação. Professor eventual, ou seja, fora do quadro. Ensinei nessa qualidade três anos lectivos.

Poucos meses depois de começar, dava uma aula de História e estava virado de costas para a porta aberta, ouvi um silêncio pesadíssimo e vi os alunos todos a levantar-se como se um alfinete lhes picasse o rabo. Entrara o Senhor Reitor. Não disse nem bons dias nem boas tardes. Avançou para a "minha" secretária, sentou-se, mandou sentar os alunos e disse-me: "Sr. Dr., faça favor de continuar a dar a aula." Eu continuei. Lembro-me que era sobre as origens do cristianismo (3º ano, pois). Quando tocou a sineta, mandou sair os alunos e disse-me para ficar. Não falarei de piropos, que é uma palavra que vai mal com ele. Mas raras vezes ouvi elogios tão expressivos. Daí para diante, tomou-me sob a sua protecção. Um dia, levou mesmo a afectividade mais longe e justificou a sua imagem. Não tinha - disse-me - qualquer prazer em fazer de "papão do liceu", mas entendia que aquele era o único modo de lidar com rapazes que os pais, na sua maioria, não seguiam e com professores genericamente incompetentes. Discuti com ele abertamente e ele ouviu-me com atenção. Lembro-me que acentuou duas vezes a expressão "formar os melhores".

Num desses anos, propus-lhe dar, em regime aberto, depois do horário normal, um curso de iniciação ao cinema, já nessa altura paixão minha. Não suponho que fosse cinéfilo ou sequer que fosse ao cinema. Mas sem hesitação me autorizou e seguiu, interessadíssimo, os resultados.

Doutra vez, pôs-me uma reserva: nas minhas aulas, tinha notado pouca participação dos alunos. Vinda de quem vinha, a observação espantou-me. Disse-lhe que era o meu estilo e que, além disso, na presença dele, o acentuava, pois que os ditos ficavam manifestamente muito pouco à vontade. Pareceu-me perceber, embora me notasse que, com a minha idade (eu tinha vinte e tal anos), devia estar mais aberto à "pedagogia moderna".

Em 1964, resolvi trocar o liceu por outra oferta de emprego, aparentemente mais tentadora. Falei com ele e só me encorajou. "Com as condições do ensino de hoje, uma pessoa como o Sr. Dr. deve seguir outros caminhos."

Já fora do liceu, tive ocasião de lhe escrever uma carta a contar a história do exame do 5º ano, que ele evidentemente esquecera. Respondeu-me emocionado: "A sua carta chegou num momento muito difícil da minha vida e foi um bálsamo."

Um ano depois, estava de novo a bater-lhe à porta. Muito mais aberto à "pedagogia moderna" (hoje, acho que escancaradamente aberto), propunha-lhe voltar para fazer experiências de pedagogia não-directiva, à Rogers. Acreditem ou não, disse-me logo que sim.

Só que nesse ano a PIDE mudou as regras para a admissão de eventuais. Até aí - o que me valera -, os contratos destes, contratos a prazo e sem garantia de quaisquer direitos, não iam ao visto prévio da polícia política. Nesse ano, passaram a ir. A informação era fortemente negativa. Chamou-me, comunicou-mo e disse-me que iria ele próprio à PIDE, para os tentar demover. Aí falhou. A experiência não-directiva vim a fazê-la no Colégio Moderno do Dr. Mário Soares. Deus escreve direito por linhas tortas.

4 - Nunca mais o vi.

Mas, de cada vez que leio, em memórias de ex-alunos dos anos 50, 60 e 70, o retrato de Sérvulo Correia como arquétipo do reitor policial ou do reitor fascista, que transformou o Camões numa prisão, penso no dever de contar esta história. Chegou a altura.

Por "razões que mais adiante explicarei"? Sem mais espaço, ficam para a próxima crónica. Se nunca aprendi a ser "não-directivo", também nunca aprendi a ser sintético.

Escritor

sábado, agosto 14, 2004

A Origem das Espécies -01

Por DAVID VON DREHLE
Público, Sábado, 14 de Agosto de 2004

Era uma vez na América um partido político que acreditava num governo central forte, em impostos altos e em ambiciosos projectos de obras públicas. Este partido era popular nas universidades da Nova Inglaterra e era a escolha esmagadora dos eleitores afro-americanos.

Era o Partido Republicano.

Os republicanos começaram como contrapeso ao outro partido: o partido dos impostos baixos e do governo limitado, o partido que olhava com suspeita as elites da Costa Leste, o partido que pensava que Washington não devia meter-se nos assuntos dos proprietários privados.

Eram os democratas.

O facto de os dois partidos terem trocado tão completamente de plataformas, de retórica e de ideais nucleares pode ser olhado, por alguns, como uma falha. Alguns podem pintar a falta de alma dos dois partidos - que parecem felizes por defenderem amanhã o contrário do que defendiam ontem, se é isso que é preciso para manter a polémica - como uma coisa má. No fim de contas, dizer mal dos partidos é uma coisa popular.

Em tempos bons e maus, em épocas de crise e de calma, os americanos têm odiado os partidos. O próprio George Washington chamou-lhes "realmente o pior inimigo" do governo popular; o seu sensível vice-presidente, John Adams, também os lamentava. "Não há nada que lamente mais do que a divisão da república em dois grandes partidos, cada um alinhado sob o seu líder e alterando medidas em oposição um ao outro", escreveu Adams, mesmo antes do fim da Guerra da Independência.

Mais ou menos um século depois, Theodore Roosevelt ia pelo mesmo caminho, desdenhando tanto de republicanos como de democratas. "Os velhos partidos não têm alma, estão divididos segundo linhas artificiais, cheios de caciques e controlados por privilégios, cada um deles é uma amálgama de elementos incongruentes, e nenhum se atreve a dizer sabiamente e sem medo o que devia ser dito sobre as questões vitais do dia."

Nos dias de hoje, os americanos odeiam os partidos por eles serem demasiado polarizados. O multimilionário Ross Perot baseou a sua impressionante candidatura presidencial em 1992 na promessa de acabar com as guerras entre os partidos. Também os odeiam por não serem suficientemente polarizados. Em 2000, o defensor dos direitos do consumidor Ralph Nader justificou a sua candidatura à Presidência dizendo que democrata e republicano eram apenas dois nomes para a mesma e velha coisa.

Mas uma coisa deve ser dita: não exageremos. É verdade que os partidos podem ser responsabilizados pelos impasses, más-vontades, acusações e ajustes de contas que infestam hoje a vida cívica nos Estados Unidos. Também pelo falhanço em projectar uma política externa clara, pela incapacidade em controlar despesas numa situação de economia em queda e pelo desperdício de anos preciosos, quando a bomba-relógio das despesas com a segurança social e as reformas ameaça a prosperidade de gerações futuras. E pela implacável destruição de reputações, pela redução fácil de crises genuínas a meros pontos para debate, pelo igualmente fácil exagero de meros pontos de debate a alegadas crises e pela subversão de prioridades nacionais a um facciosismo basista e à ganância pessoal. Mas quem é que não tem uma falha ou duas?

A América viu os democratas reunirem-se em Boston para se aplaudirem a si mesmos e ao seu candidato presidencial. Os delegados aprovaram uma plataforma que ninguém lê e conversaram nos corredores, enquanto vários dirigentes eleitos leram discursos que ninguém ouviu. No fim deste mês, em Nova Iorque, os republicanos organizarão um evento semelhante. A questão vital, neste momento de convenções, é como é que estes partidos - estas organizações sem princípios, oportunistas, espontâneas e inconsistentes com as quais vivemos rabujentamente há tanto tempo - têm conseguido produzir um tal excedente de liberdade, prosperidade e felicidade, em comparação com tão pouco (no deprimente balanço da depravação humana) crime, tirania e corrupção. Embora seja difícil imaginar, devem estar a fazer alguma coisa bem feita. Pensemos no quê...

is uma coisa a favor deles. Pelo menos, há muito que não andam aos tiros uns aos outros. Fez em Julho 200 anos que o vice-presidente dos Estados Unidos se escapuliu para um lugar não revelado, para uma reunião privada com o ex-secretário do Tesouro. Em Nova Jersey, com vista para Manhattan, Aaron Burr feriu mortalmente Alexander Hamilton com um único tiro de uma pistola de duelo.

É óbvio que as divergências se tinham tornado pessoais. Estes líderes brilhantes do jovem país não teriam desatado aos tiros um ao outro sem uma justificação forte, por exemplo Burr ter levado a mal qualquer coisa que Hamilton possa ter dito (ou possa não ter dito) e que podia ter aparecido num jornal, mas que, de facto, não apareceu. Antes de a sua relação ter chegado a esse triste nadir, contudo, o choque entre o terceiro vice-presidente dos Estados Unidos e o autor principal de "The Federalist Papers" começou como pura política partidária. Hamilton era um federalista, e Burr era um republicano (que era o que os democratas chamavam a si próprios por esses dias - é verdade). Em 1800, Hamilton conspirou para fazer com que Burr não chegasse à Casa Branca, como vingança por Burr ter antes conspirado para manter os hamiltonianos fora do poder. Conspirações, esquemas, ridicularizações públicas, traições: uma coisa levou a outra até que... Bang!

Isto é que é uma verdadeira política de destruição pessoal.

O propósito de contar esta história é mostrar como, por muito maus que hoje pareçam os rancores partidários, as coisas podem ser muito piores. As políticas partidárias podem causar guerras, motins e divisões. Fora dos Estados Unidos já produziram depurações, prisões e genocídio. Olhado nesta perspectiva, o facto de o vice-presidente Dick Cheney ter usado no Senado a palavra "f..." parece algo muito civilizado.

A outra lição a tirar da triste história de Burr e Hamilton é que os partidos rivais dos Estados Unidos não apareceram a partir do nada. Estão com a nação desde o princípio. A estupenda figura de George Washington era capaz de se elevar acima das querelas partidárias, mas era a única. Depois dele, os dois mais brilhantes e visionários jovens dos Estados Unidos propuseram ideias dramaticamente diferentes sobre o que devia ser o futuro da América e sobre quem devia conduzir para lá a nação. Dois génios, dois rivais, dois egos - dois partidos.

Hamilton foi um deles: bem parecido, ambicioso, arisco e grande. Emigrante das Índias Ocidentais, filho ilegítimo, Hamilton abriu caminho até se tornar braço direito de Washington durante a Guerra da Independência. Também era um escritor dotado e enérgico, dom que aplicou para se tornar um dos mais eficazes vendedores da Constituição dos Estados Unidos, e que usou mais tarde para ataques demolidores aos seus inimigos políticos. Hamilton tinha a visão de um país centralizado governado por um presidente forte - talvez mesmo um rei - em cooperação com uma aristocracia mercantil. De uma nação de comerciantes, fabricantes e financeiros unidos por um sistema bancário central e protegida por tarifas elevadas.

E depois havia Thomas Jefferson: refinado, ambicioso, perdulário com o dinheiro mas maravilhosamente eficiente com as ideias. Era o único que realmente podia comparar-se a Hamilton. Jefferson tinha a visão de um país descentralizado, uma vaga confederação de estados governada tão pouco quanto possível; tinha a ideia de uma nação de plantadores e agricultores; preferia a democracia à aristocracia e por isso suspeitava de quem quisesse concentrar poder.

Logo que Washington tomou posse, Hamilton e Jefferson começaram a dividir o novo país em facções concorrentes. O pai dos Estados Unidos procurou controlá-los nomeando-os para os dois lugares mais importantes do Governo. Mas a rivalidade do secretário do Tesouro Hamilton e do secretário de Estado Jefferson cedo fizeram com que a fricção de hoje entre Colin Powell e Donald Rumsfeld pareça uma sessão de massagens.

Discordaram em questões grandes (como a Revolução Francesa) e pequenas (como a melhor maneira de se dirigirem ao Presidente). Hamilton financiou um jornal para poder ter um sítio onde publicar as suas tiradas anti-Jefferson - escritas sob pseudónimo, embora todos reconhecessem a sua extraordinária escrita quando a liam. Jefferson, um pouco mais circunspecto, encorajou um amigo, o poeta Philip Freneau, a lançar um jornal concorrente, e contratou o seu amigo James Madison para escrever tiradas anti-Hamilton.

No fim do primeiro mandato de Washington, a animosidade entre Hamilton e Jefferson "tinha chegado ao ponto em que dificilmente suportavam estar na mesma sala", escreveu o historiador David McCullough. "Cada um tinha a certeza de que o outro era um homem perigoso que tinha a intenção de dominar o Governo". A única coisa em que conseguiam chegar a acordo era que sem mais quatro anos com Washington na Presidência o país podia desfazer-se em pedaços.

O velho general cumpriu mais um mandato, e depois retirou-se para o monte Vernon, deixando atrás de si um governo dividido. Em 1796, o federalista John Adams foi eleito Presidente, com Jefferson - líder da oposição - como vice-presidente. Este exercício de coligação acabou por revelar-se um equívoco. Jefferson quis começar com uma generosa e calorosa carta de elogio ao seu velho amigo Adams, mas o estratega do seu partido, Madison, pediu-lhe para não enviar a carta, avisando-o de que era perigoso dizer coisas simpáticas sobre um adversário.

No período de dois anos, havia multidões de federalistas a chocar com multidões de jeffersonianos nas ruas de Filadélfia. "A política e os ódios partidários destroem a felicidade de qualquer ser que aqui viva", escreveu Jefferson à filha. Enquanto os Estados Unidos se abeiravam da guerra com a França, os insultos e o jogo baixo nos "media" do século XVIII ultrapassavam Michael Moore e Rush Limbaugh no seu pior. Um director de jornal pró-Jefferson perguntou que "causas ocultas" tinham levado os norte-americanos a apoiarem Adams - "um miserável cuja alma foi rejeitada pela própria natureza".

Para silenciar as críticas, o Congresso aprovou - e Adams assinou - legislação tenebrosa (os Alien e Sedition Acts) que limitava drasticamente as liberdades constitucionais de expressão e de imprensa. O neto de Benjamin Franklin, um director de jornal pró-Jefferson, esteve entre as duas dezenas de jeffersonianos presos e acusados ao abrigo da lei de sedição de caluniarem o Presidente Adams. Vários jornais foram encerrados.

As paixões aproximaram-se do ponto mais perigoso. Então, por razões que não são inteiramente claras, Hamilton decidiu que as suas querelas internas com Adams eram maiores do que as suas disputas filosóficas com Jefferson. Virou-se contra os seus correligionários federalistas. O partido hamiltoniano fracturou-se, para nunca mais se recompor. O partido de Jefferson prevaleceu e manteria a Casa Branca durante os próximos 40 anos.

Uma coisa muito boa que se pode dizer dos partidos políticos norte-americanos é que tendem a implodir.

Desde o princípio, sempre que um partido conseguiu a força suficiente para começar a aprovar leis horríveis (como os Alien e Sedition Acts), desmoronou-se pouco depois. Com poder em excesso, os partidos perdem o controlo das coisas. Ou permitem que algum elemento do partido leve os seus dogmas a um extremo, afugentando desta forma os apoiantes moderados. Ou então fossilizam-se e vêem-se incapazes de lidar com os problemas que surgem. Sucede algo e o pêndulo começa a deslocar-se no sentido contrário. Isto aconteceu aos federalistas. Anos depois, o ultraje público face aos modos tirânicos do homem-forte populista Andrew Jackson dividiu em dois campos o partido de Jefferson - os Democratas de Jackson contra os Whigs de Henry Clay - e deixou-o incapaz de lidar com a questão da escravatura.

Depois de triunfarem na Guerra Civil, os republicanos também atingiram um ponto culminante, mas depressa cederam a um processo de lutas internas. Mais recentemente, os democratas esvaziaram-se como um dirigível com um furo, depois de Franklin D. Roosevelt.

Por outras palavras, há qualquer coisa nos partidos norte-americanos, uma espécie de botão de autodestruição sensível ao poder, alojado profundamente na sua maquinaria, que os impede de se tornarem demasiado grandes. À superfície, pode parecer que não é grande coisa. Faz tanto parte da história dos Estados Unidos que é dado como adquirido. Mas, pensando bem, o que nos ensinou o século XX sobre partidos que se tornam demasiado fortes? O facto de os partidos norte-americanos, no seu auge, se desfazerem em pedaços teria parecido uma bênção aos judeus da Alemanha nazi ou aos prisioneiros dos gulags na União Soviética.

© PÚBLICO/"The Washington Post"

Santos-04-S. Nicolau

Por MICHEL BRAUDEAU
Publico, Quinta-feira, 12 de Agosto de 2004

Os santos viajam depois da sua morte num espaço indefinido, o da lenda e da fé, do imaginário dos crentes que os tomam por patronos protectores, diplomatas acreditados pelo Todo-Poderoso e que, para obter a sua intercessão, não hesitam em modelá-los à sua vontade, com uma liberdade por vezes muito desenvolta, pouco de acordo com as mensagens que deixaram no final da sua missão pela Terra. Como se a sua última prova fosse não pertencer a si próprios, mas abandonar-se às vontades dos frívolos vivos que os tomam e os acomodam conforme desejam.

Sob o olhar eterno de Deus, os santos são imutáveis, sem dúvida; vistos cá de baixo, são nossos prisioneiros, reflectem as épocas e os modos do mundo submetidos ao tempo. E nenhum ícone humano pode escapar à análise crítica de psicólogos e sociólogos, a última etapa do calvário dos santos.

O caso de Nicolau é disso uma demonstração clara. Poucos santos estão tão universalmente presentes, mas não sabemos sobre ele mais nada senão que foi bispo de Mira no século IV. Segundo Jacques de Voraigne, que tentou harmonizar as diversas fábulas e histórias sobre Nicolau, teria nascido em Patras, Lícia, por volta de 270, de pais cristãos. O seu pai, Epifânio, era rico e piedoso, a sua mãe, Joana, era irmã de Nicolau, o antigo, bispo de Mira, actual cidade de Dombre, na costa da Anatólia.

Rico depois da morte dos pais

No dia em que lhe deram o primeiro banho, quase se afogou na banheira. Desde a infância que jejuava: só mamava às quartas e sextas. Adolescente, ignorava os prazeres vulgares dos seus camaradas e frequentava as igrejas, estudando as santas escrituras.

Tornando-se rico depois da morte dos pais, resolveu empregar a sua fortuna para a glória de Deus. Sabendo que um dos seus vizinhos, dominado pela pobreza, tentava entregar as suas três filhas à prostituição para viver do seu deboche, Nicolau deitou às escondidas pela janela do vizinho uma quantidade de ouro suficiente para pagar o casamento da mais velha. Depois renovou o gesto para com as outras duas. O pai, curioso de descobrir quem era o benfeitor, ouviu o ouro cair, perseguiu e apanhou Nicolau, que o fez jurar que guardaria segredo sobre a sua identidade.

Quando morreu o bispo de Mira, os bispos da região reuniram-se para designar o seu sucessor e decidiram que nomeavam o primeiro que entrasse na igreja de manhã. Foi Nicolau. Apesar das honras devidas ao seu cargo, o bispo Nicolau continuou humilde e grave nos seus modos, fugindo da companhia das mulheres e rezando. Uma noite, alguns marinheiros apanhados numa tempestade pediram a sua ajuda. Nicolau apareceu-lhes, ajudou-os a manobrar o barco até a tempestade se desvanecer. Os marinheiros foram à igreja agradecer a Deus e reconheceram Nicolau.

Um dia, salvou toda uma província da fome, entregando aos pobres o trigo destinado ao imperador e devolvendo por milagre a preciosa carga aos navios. Uma outra vez, quando Nicolau combatia a heresia arianista e o culto idólatra de Diana, o demónio, desesperado, disfarçou-se de uma velha mulher e confiou um recipiente com óleo diabólico a peregrinos que navegavam ao encontro de Nicolau. Este, alertado, foi de barco até eles e interrogou-os. Adivinhando que a velha não era senão Diana travestida, ordenou aos peregrinos que deitassem o vaso ao mar, onde o óleo "contranatura" se incendiou de imediato.

Os três príncipes

O seu milagre mais brilhante diz respeito a três príncipes, Nepociano, Urso e Apeliano, enviados pelo imperador Constantino para reprimir uma insurreição. Enquanto Nicolau os acolhia, o cônsul da região, prefeito corrupto, fez condenar à morte três soldados inocentes. Nicolau, acompanhado pelos príncipes, correu e tirou os soldados das mãos do carrasco. Os três príncipes partiram a cumprir a sua tarefa, mas, de regresso à corte, foram perfidamente denunciados pelo prefeito como traidores e condenados pelo imperador.

Lembrando-se dos três soldados inocentes, Nepociano invoca a ajuda de Nicolau. Este aparece em sonhos ao imperador e ao cônsul na mesma noite e na sua qualidade de bispo de Mira exige a libertação dos príncipes. Ao acordar, o imperador, informado da vida de Nicolau e dos seus milagres, convence-se da inocência dos príncipes e manda que sejam libertados.

Encontramos uma variante deste grande feito durante o século XII na Normandia e Lorena: três crianças perdidas pedem hospitalidade por uma noite a um talhante, que as degola, corta ems pedaços e põe a salgar. Nicolau, que passava nas redondezas, é recebido pelo talhante e insiste em comer o que está na salgadeira. As crianças foram imediatamente ressuscitadas. Pensa-se que este milagre póstumo é uma deformação da história dos três príncipes.

Os miniaturistas da Idade Média - por falta de espaço ou para exaltar a grandeza do santo - terão reduzido o tamanho dos três oficiais e representaram-nos como crianças, assim como a torre em que estavam encerrados foi desenhada com a dimensão de um tanque, para fazer caber todas as personagens numa só imagem. Este erro ingénuo de perspectiva, artifício banal nas pinturas da época, acabou por ser fecundo e por fazer com que Nicolau - em nada predisposto a este papel particular - se tornasse por excelência no santo protector das crianças que ainda é; ao preço, é verdade, de algumas metamorfoses acrobáticas que relevam menos da hagiografia do que das fantasias do folclore medieval - e nos nossos dias responde sobretudo às necessidades triviais do comércio.

Reputação de milagreiro

Nicolau participa, dizem-nos, no concílio de Niceia em 325 e é chamado a Deus pouco depois. A sua reputação de milagreiro, importante já durante a vida, não parou de crescer e os milagres multiplicavam-se ao redor do seu túmulo na catedral de Mira. Desde o século VI que lhe foi consagrada uma igreja em Constantinopla, e depois outras; o culto de S. Nicolau estende-se por toda a Ásia Menor e Balcãs, entre os cristãos ortodoxos da Síria, da Palestina e do Egipto. Em 1087, os venezianos, que tinham já repatriado os restos mortais de S. Marcos, quiseram apropriar-se dos de S. Nicolau. Marinheiros de Bari levam a melhor e transportam as relíquias para a sua terra, onde são solenemente sepultadas numa basílica.

Os povos escravos, ao serem cristianizados, adoptam S. Nicolau como patrono, sendo venerado em todas as igrejas do Oriente e do Ocidente. Na Idade Média, na Europa do Norte, nas procissões de S. Nicolau, a 6 de Dezembro, uma criança vestida de bispo distribui prendas pelas crianças bem-comportadas, enquanto o seu ajudante pune os ingratos e indisciplinados. Na Santa Rússia anterior a 1917, a Igreja ortodoxa venera Nicolau e dois czares têm o seu nome.

A Reforma protestante no século XVI aboliu o culto dos santos, mas os pequenos holandeses continuam a esperar a visita e os presentes de Nicolau, Sinterklaas, que desce pela chaminé na noite de 6 de Dezembro. Ao emigrarem para a América para fundar a colónia de Nova Amesterdão (Nova Iorque em 1664), os holandeses levaram com eles Sinterklaas, rapidamente rebaptizado Santa Claus. Nos países católicos da Europa, por não conseguirem acabar com o culto do S. Nicolau, as autoridades cristãs contentam-se em aproximar a data da sua celebração da do Menino Jesus.

Barba para alegrar crianças

A propósito, porque é que o Natal é a 25 de Dezembro? Para os antigos romanos, era a data do solstício de Inverno. Eles preparavam nesse dia-charneira a festa das Saturnais, durante as quais os escravos tomavam por momentos os lugares dos seus proprietários - prefiguração do Carnaval - antes de serem imolados. A Igreja, no século IV, ignorando o verdadeiro dia do nascimento de Cristo, decidiu associar-se de qualquer modo a esse espaço de cerimónia imemorial e fazer coincidir esse dia, o do (re)nascimento do sol, com o do nascimento do Salvador, sol da justiça. E o 25 de Dezembro passou a ser definitivamente designado como o dia do aniversário de Cristo pelos papas Libério e Sisto III. "Natale", em latim, tornou-se "Natal".

As Saturnais - originalmente festas de mortos sem sepulturas - transformaram-se na época medieval em "festas dos loucos", durante as quais se elegia um papa dos loucos, chamado "o abade da Alegria". Durante este período frio e sombrio do fim do Outono, as crianças, disfarçadas de mortos-vivos, deslocavam-se em grupos de casa em casa, cantando e fazendo votos, em troca de frutos ou bolos. Era tentador e lógico fundir pouco a pouco a tradição das colectas e a procissão de Nicolau. Através de uma hábil manipulação de calendário, Nicolau passou a dar presentes na véspera de Natal.

Como nota Claude Lévi-Strauss num artigo memorável de 1952, "O suplício do Pai Natal", as colectas da Idade Média estavam ligadas às de S. Nicolau, que ressuscita as crianças mortas, e sobretudo às do Halloween, na véspera do Dia de Todos-os-Santos, em que, nos países anglo-saxónicos, "as crianças mascaradas de fantasmas e esqueletos perseguem os adultos, que apenas recuperam o seu sossego através de presentes (...). Procura dialéctica em que as principais etapas são: o regresso dos mortos, a sua conduta ameaçadora e persecutória, o estabelecimento de um 'modus vivendi' com os vivos através de uma troca de serviços e de presentes, enfim, o triunfo da vida, quando, no Natal, os mortos abandonam os vivos para os deixar em paz até ao Outono seguinte".

Assim, explica Lévi-Strauss, o Pai Natal moderno é herdeiro do abade da Alegria, de quem é a antítese. Através da deslocação da festa de S. Nicolau para o Natal, o abade, "emanação da juventude simbolizando o seu antagonismo em relação aos adultos, tornou-se em símbolo da idade madura (...), o apóstolo do mau comportamento fica encarregado de sancionar a boa conduta; aos adolescentes abertamente agressivos substituem-se os pais escondendo-se sob uma falsa barba para alegrar as crianças".

Negócios são negócios

Em 1809, o escritor Washington Irving evoca as viagens aéreas efectuadas por S. Nicolau para chegar numa noite a milhares de pequenas almas... Em 1821, um pastor americano, Clement Clark Moore, escrevia para as suas crianças um conto onde o Pai Natal substitui Nicolau. O Pai Natal é jovial e rubicundo, já não traz a mitra, a sua cruz é de açúcar de cevada.

Já não anda de burro, mas desloca-se pelos ares a bordo de um trenó com oito renas. Em 1860, o ilustrador Thomas Nast, o criador da figura do Tio Sam, envolveu o Pai Natal num fato vermelho talhado na bandeira estrelada e situou a sua residência oficial no Pólo Norte.

Em 1931, finalmente, Haddon Sundblom, encarregado da publicidade da Coca-Cola, redesenha a silhueta do Pai Natal, dando-lhe uma estatura humana, veste-o de vestes vermelhas forradas a branco (as cores emblemáticas da marca) e é com este novo "look" que chega à Europa; é levado não por renas voadoras, mas pelo gigante de bebidas de Atlanta, desejosa de incitar os consumidores a comprar a poção gasosa e refrescante em pleno Inverno.

Vozes elevaram-se, nos anos 50, entre elas a do secretário-geral da ONU, o sueco Dag Hammarskjöld, para criticar o americanismo do Pai Natal desembarcado nas malas do Plano Marshall. O arcebispo de Toulouse estigmatiza este retorno do pagão, o cónego Kirr faz queimar uma efígie do Pai Natal na praça da catedral de Dijon diante de 250 crianças consternadas. Pudemos constatar a eficácia de um tal exorcismo. Negócios são negócios e os deuses do negócio são duros de roer.

Os industriais da cultura anglo-saxónica começaram recentemente a reintroduzir na Europa a muito antiga festa celta do Halloween (e o seu cortejo lucrativo de disfarces, jogos e doces). O sucesso da operação foi mitigado, frágil, menos insignificante do que alguns previam. Sem dúvida um melhor estudo de mercado permitirá transformar num sucesso o transplante artificial de uma "tradição" esquecida, supérflua mas rentável.

Para os que resistem ainda ao grande negócio do Pai Natal, a festa de S. Nicolau continua fixada a 6 de Dezembro. Abundantemente representado, o número das suas estátuas só é suplantado por Santa Teresa e Santo António de Pádua. E se o bispo da antiga Mira continua a ser padroeiro das crianças e dos indefesos, é também o da Rússia, da Lorena, dos fazedores de perfume, dos marinheiros aflitos e das raparigas em dificuldades.

Exclusivo PÚBLICO/ "Le Monde"

Dominicanos Terão Sobrevivido 12 Dias com carne humana e leite materno

Público, Sábado, 14 de Agosto de 2004

Resgatado na terça--feira, o grupo de imigrantes relata o horror vivido a bordo

Amamentaram-se com leite materno, beberam água do mar e alguns terão mesmo comido carne humana, num acto desesperado para salvar as suas vidas.

Os relatos de terror, citados pelo jornal espanhol "El Mundo", pertencem aos 36 dominicanos que sobreviveram 12 dias numa balsa à deriva, entre a República Dominicana e a ilha de Santo Domingo, na América Central.

Os sobreviventes integravam um grupo de cerca de 90 imigrantes dominicanos que a 29 de Julho se fizeram ao mar numa embarcação improvisada, com destino a Porto Rico. Dois dias depois da partida iniciou-se o pesadelo. A poucos quilómetros de Desecheo, uma ilhota já em território porto-riquenho, o motor avariou. E foi então que, segundo os testemunhos dos sobreviventes, o comandante decidiu subir para outro barco de imigrantes que passava ao largo, com a promessa de que regressaria com ajuda. Nunca voltou.

Sem motor e sem remos, a embarcação começou a afastar-se mar fora. Ao terceiro dia acabou-se a comida - chocolates, amendoins e sardinhas - e a água. Ao quinto dia, os mais velhos começaram a morrer. Os que iam sobrevivendo exigiam às mulheres, incluindo as que não estavam a amamentar, que lhes dessem o seu leite.

Já a salvo em várias hospitais, mas desidratados e queimados pelo sol e traumatizados pela experiência que viveram, os sobreviventes começaram a contar a agonia vivida a bordo.

"Ela dizia que já não podia mais, que tinha os seios secos, mas eles continuavam a comer", descreve Faustina Santana, 28 anos, mãe de uma criança de 18 meses e testemunha da morte de uma das outras mulheres que amamentou alguns dos passageiros. A mulher acabou por morrer com uma hemorragia e o seu corpo foi atirado ao mar, prossegue.

"Fiquei meio louco. Tantos dias sem comer, sem dormir. O pior era a sede. Não me lembro de muitas coisas", relata Ramón Payano, 40 anos, que viajava com uma sobrinha, em busca de um trabalho que lhe desse para comer e alimentar os seus quatro filhos. De Jesús conta que o seu objectivo era juntar-se ao marido. Pagou mais de 700 dólares pela viagem e deixou os dois filhos, de quatro e 10 anos, com a avó.

Há quem assegure - e também quem negue - que numa tentativa desesperada de sobrevivência se recorreu a canibalismo. Órgãos de comunicação locais relatam testemunhos nesse sentido. Os defuntos eram mordidos e o seu sangue servia para saciar a sede.

O barco foi resgatado por pescadores de Santo Domingo na terça-feira passada, perto de uma aldeia no norte do país . Quarenta pessoas continuam desaparecidas.

Rohmer: a Grega e o General

Por JOÃO BÉNARD DA COSTA
Público, Sexta-feira, 13 de Agosto de 2004

uviam-se botas a marchar. Não é como quem diz, é como quem escuta. Rufos. Um assobio finíssimo. Depois, ainda sem música, brados indistintos de homens armados. Mais botas, mais marchas. E, então, como se nos falasse ao ouvido, a voz quente e translúcida de Yves Montand, ao tempo em que tinha vinte e poucos anos, Edith Piaf o protegia e era imaculadamente revolucionário. Ainda sem cantar, em recitativo, segredava-nos: "Ami, entends-tu l'ombre noire / des corbeaux sur nos plaines? / Ami, entends-tu ce cri sourd / du pays qu'on enchâine?

Assim começava "Le chant de la libération", mais conhecido como "Le chant des partisans", hino da Resistência francesa, ou hino dos comunistas dela (há versões), durante os anos torturados e heróicos da ocupação alemã.

Ouvi-o mil vezes, não durante esses anos, mas dez anos depois, num disco que tinha na capa a reprodução colorida de uma gravura alusiva à tomada da Bastilha. "Chansons Populaires de France" chamava-se. Começava com baladas medievais ("Le roi Renaud de guerre revient") e vinha pelos séculos fora até acabar com os "partisans".

Sem que eu o suspeitasse (a palavra já me saltou ao caminho, sem a premeditar tão cedo) a audição do disco fazia parte do programa de sedução dos meus educadores políticos. Como a "Cantata da paz" de Prokofiev ou como o "Canto das florestas" de Chostakovitch.

Lembrei-me de tudo isso outro dia, no Nimas, vendo "Triple Agent" de Rohmer quando, ainda antes de qualquer imagem visual, comecei a ouvir um canto russo que ora me lembrou o "Canto das florestas" ora o "Chant des partisans". Descobri, depois, que era outra oratória de Chostakovitch e que a letra também segredava coisas a quem se trata por tu. "Minha loura, ouves tu, na cidade / os silvos das fábricas e comboios?" Quem sabe se não foi essa composição que inspirou Druon e Kessel para o hino dos resistentes? Quem sabe se não está nela o traço de ligação entre os discos que eu mais ouvia há 50 anos? Quem sabe? O ecrã é tão escuro e nós ainda não vimos nada.

Mas só agora, depois de ver o filme, reparei como é arrepiante a letra do "Chant des partisans", que os manda matar depressa "à la balle et au couteau" e que justifica o ódio pela miséria. Um guerrilheiro da Al-Qaeda podia cantá-la convictamente. Precisei de 50 anos e do filme de Rohmer para pensar nisso, assustando-me também com associação tão paulatinamente reaccionária.

2 - Para "Triple Agent", Rohmer recorreu, outra vez, a um artigo publicado na revista "Historia", que já lhe fornecera a base para "L'Anglaise et le Duc", levando-o a conhecer as memórias de Grace Elliott. Agora, não se trata da Revolução Francesa, nem Rohmer teve que reconstruir em vídeo Paris nos anos do Terror. A sua fonte (ou as suas fontes, pois que Rohmer cita várias) levaram-no à segunda metade dos anos 30 (1936-1939) e à "tenébreuse affaire" (é Rohmer quem convoca Balzac, não sou eu) do rapto de um general russo branco, em Paris, 1937. É um caso verídico, mas que Rohmer tratou com muito mais liberdade do que a história de Grace e de Philippe Égalité. Disse ele numa entrevista à "Positif": "Os russos conhecem bem essa história, mas há duas teses em confronto: uma acredita na culpabilidade de Skoblin [a personagem histórica que serviu de base a Fiodor Voronine, protagonista do filme]; outra que vê em todo esse caso uma maquinação contra ele, fomentada ou pelos russos ou pelos alemães, que achavam que ele sabia demais, ou por outros oficiais, esses sim autênticos espiões. Eu decidi deixar o espectador na dúvida. Achei mais original contar uma história que acaba com um ponto de interrogação. Se o público ficar desiludido, o problema é dele. Nunca me dirigi ao grande público. Tenho o meu público, que me é bastante fiel. E o ponto de interrogação corresponde à verdade. Há mil histórias de espionagem que nunca se esclareceram. Tomei imensas liberdades em relação à história, mas mantive a fidelidade de não optar. Só conservei, dos factos reais, os acontecimentos mais inverosímeis, sobretudo o final."

Raríssimos, hoje em dia, pegam assim o público pelos cornos, talvez o que ele tenha de mais visível. Raríssimos recorrem, recorrentemente, à palavra fidelidade. Raríssimos preferem as perguntas às respostas, Rohmer é raríssimo. Tão raríssimo como este raríssimo filme. Quando eu o fui ver, cerca de dois meses depois da estreia portuguesa, verifiquei, com grande surpresa, que a sala estava cheia. Não há público, há pessoas. E, como dizia e.e. cummings, de cada vez que alguém coloca um colectivo (o público, por exemplo, seja o que for que isso for) acima do indivíduo, podemos estar seguros que estamos perante um crápula, um hipócrita ou um bajulador. Cada vez são mais? É bem certo. Mas essa é só a melhor razão para cada vez mais amarmos o raríssimo Rohmer.

3 - Acabada a surpresa do ecrã negro com cânticos russos estalinianos, nova surpresa. Um intertítulo, como num velho filme mudo, situa-nos no tempo e no espaço. Maio de 1936, França, Paris. E, logo a seguir, terceira surpresa: um jornal de actualidades da época conta-nos a vitória da Frente Popular nas eleições desse mês e desse ano. Ao longo do filme, o processo é recorrente. Cada capítulo acaba com uma legenda e começa com um jornal de actualidades.

Caução histórica? Não é preciso chegar ao fim do filme, para reparar que, numa história onde todos mentem (ou onde todos parecem mentir), quem mente mais são essas actualidades. O documentário é sempre muito mais enganador do que a ficção. Só em torno deste tema, o filme de Rohmer justificaria longuíssimo ensaio, precisamente sobre a natureza do real e da ficção. Agora que o documentário voltou à moda, o filme de Rohmer, bem visto, devia bastar para a vacilação de muitos dogmas. Que bom teria sido se esses documentários fossem a verdade. "No pasarán"? Ai não, que não passaram. Amanhãs que cantam? Estaline nos braços de Hitler e o pacto germano-soviético. A paz para uma geração? Faltavam pouco mais de três anos para começar a II Guerra Mundial.

Ouça-se e veja-se com muita atenção aquele casal de simpáticos comunistas (pessoas tão sinceras e que acreditam tão sinceramente no que dizem, como reconhece a própria Arsinoé, a mulher do possível agente triplo) com as suas desculpas para Estaline e para a revolução num só país. Julgavam que iam para a ordenha ou para a tosquia e ignoravam-se a caminho do matadouro. Por isso, a certa altura, desaparecem do filme. Já lhes conhecemos a sorte e não eram eles que podiam valer a Arsinoé. Eram carne tenra e só ela estava marcada pela tuberculose óssea que não a deixava andar.

4 - Quando é que entra o medo neste filme, quando é que entra a suspeita neste filme, que faz tanto medo e que sobre o medo e a suspeita é construído, como um filme de Hitchcock, mestre de Rohmer para quem o não saiba?

Demora algum tempo, como mandam as boas regras dos filmes de terror. Ao princípio ("décors", guarda-roupa) parece que estamos apenas perante uma boa reconstituição histórica do ambiente político e social desses anos.

O general russo - Voronine - é bem simpático e bem dialogante para um russo branco. Serge Renko, o actor, parece-se com David Niven em suave "charme" e suave calma. A grega mulher dele - Katerina Didaskalu - é bem bonita e não parece ter muito a ver com o mundo e com as ideias do marido. É uma pintora de domingo, "assez naïve", como o Douanier Rousseau, e não é dada a vanguardismos estéticos. Copia o "real" (ou espia o "real") e pinta muito parecidinho. O contrário dos Picassos que os vizinhos comunistas têm nas paredes. Só mais tarde (e porque um personagem o sublinha) é que reparamos quão estranho é que aquele homem seja general há cerca de vinte anos (quando ele próprio vinte anos teria), o que lhe vale uma irónica comparação com Bonaparte. Só mais tarde reparamos que aquele homem, de mundanal existência, está muito bem informado dos destinos do vanguardismo estético na Rússia de Jdanov e observa, com razão, aos vizinhos que as pinturas da mulher seriam bem mais apreciadas na URSS do que na França de Léon Blum. Só mais tarde registamos como ele toma a sério as consequências a extrair do "socialismo num só país", eventualmente a única personagem a não se deixar iludir por caprichos espanhóis e por antifascismos de fachada.

Mas se o medo entra no filme (e de que subreptícia maneira!) pelo que sabemos que vai acontecer, pela razão que ele tem e que ninguém lhe dá, a suspeita só chega - de sopetão - quando, ouvindo o marido conversar com o primo príncipe tornado "chauffeur" russo, Arsinoé realiza que Voronine conta ao outro coisas que ela nem sequer imagina, que o marido não é quem parece ou não parece quem é. A partir desse momento, tudo vacila. É bem verdade que ele próprio admite ser um agente duplo ou até triplo. Mas será verdade que ele foi a Berlim e conspira com os nazis? Será verdade que ele prepara um regresso à URSS, porque Estaline precisa de generais brancos, depois de ter liquidado os vermelhos? Quem é aquele homem? Um génio sem escrúpulos? Um megalómano irresponsável? Um pobre pateta, de fraquezas bem exploradas? E ela quem é? "Qu'est-ce que savait Arsinoé?" para aliterar levemente o título de um artigo de Jean-Michel Frodon nos "Cahiers".

Provavelmente sabe tanto quanto a Joan Fontaine de "Suspicion" de Hitchcock sabia de Cary Grant. Suspeita e nunca está certa de nada. Nenhum plano do filme mostra o casal junto e tudo se passa em campo-contracampo, numa das mais sábias utilizações dele que já vi. Aparentemente juntos, estão sempre separados. Aliás, a fabulosa "découpage" de "Triple Agent" ("l'élément premier de la mise-en-scène", segundo Rohmer) separa sempre todos de todos, cobrindo de ausência as humanas presenças.

As personagens falam muito, como falam em todos os filmes de Rohmer, mas as palavras de nada adiantam e acabam sem qualquer explicação para o que lhe aconteceu a ele e para o que lhe aconteceu a ela, embora saibamos que o que lhes aconteceu é a única verdade histórica do filme.

Mas é durante esses diálogos, sob e sobre esses diálogos, que a suspeita mais se adensa e nos faz mais medo. Até porque suspeitamos que o mais importante não é aquela história. Se afinal "Triple Agent" não for um filme sobre os anos 30, mas sobre os dias de hoje? Na história da inglesa e do duque, ainda tínhamos onde nos agarrar. No "gouffre de la mise-en-scène" que é a não-história da grega e do general, ficamos em suspensão. Não há nada que faça mais medo do que o vazio. Não haver ponta por onde se lhe pegue. Quando se quer dizer mal, diz-se isso. Quando se quer dizer bem, como é que se diz? Não se diz nada. Filma-se "Triple Agent". Ou vê-se "Triple Agent". Escritor

Falta à Doutrina Kerry em perspectiva histórica o que lhe sobra em incoerência

Por ROBERT KAGAN
Sábado, 14 de Agosto de 2004

Um dia, quando as paixões suscitadas pelas eleições americanas sossegarem, os historiadores e os analistas da política externa dos Estados Unidos não deixarão de reparar numa notável passagem do discurso de aceitação da nomeação de Jonh Kerry: "Como Presidente - declarou Kerry - trarei de volta esta nação à sua honrosa tradição: os Estados Unidos nunca irão para a guerra por vontade própria, só iremos para a guerra quando formos obrigados a isso. Esse será a posicionamento da nossa nação." Esta declaração recebeu os mais calorosos aplausos dos congressistas democratas.

Por certo que, face a esta declaração, os historiadores diplomáticos devem ter pensado em suicidar-se por compreenderem que, afinal, não entendem nada do que são as tradições do país. E, provavelmente, até alguma opinião pública estrangeira entusiasmada com a possível vitória de Kerry em Novembro terá reflectido sobre o grau de politicamente correcto e de inocência exibido pelo candidato. De facto, quem para além de um político americano, perguntar-se-ão, poderia garantir que os Estados Unidos nunca foram para a guerra a não ser forçados a tal?

Na verdade, no último século e meio, os EUA enviaram tropas para combaterem em dezenas de situações a que a tal não eram obrigadas. Com a excepção das II Guerra Mundial e da intervenção no Afeganistão, em todas as outras intervenções é discutível se os Estados Unidos foram para guerra obrigados. Na verdade, não foram "obrigados" a enviar "marines" para Cuba, para o Haiti, para a República Dominicana, para o México ou para a Nicarágua nas primeiras três décadas do século XX e fizeram-no. Até mesmo a necessidade de intervirem na I Guerra Mundial ainda hoje é debatida pelos historiadores.

E que dizer da guerra em que o próprio Kerry combateu, a do Vietname? Será que defende que se inscreve na sua descrição da "honrosa tradição" da nossa nação? E todas as intervenções, realizadas durante a guerra fria, na Ásia, na América Latina e no Médio Oriente? E que dizer das guerras do pós-guerra fria? Em 1991 os Estados Unidos não estavam "obrigados" a expulsar Saddam Hussein do Kuwait - aliás, ninguém sabe isso melhor do que Kerry, que votou contra a primeira guerra do Golfo, apesar da sua aprovação unânime pelo Conselho de Segurança. Assim como não estavam "obrigados" a nenhuma das intervenções externas da Administração Clinton, nomeadamente no Haiti, na Bósnia e no Kosovo, tudo guerras que a América escolheu travar. Escolheu bem, nos três casos, mas não foram guerras que estivesse "obrigada" a fazer.

Sendo assim, porque será que Kerry invoca uma "tradição" americana que nunca existiu? Provavelmente porque pensa que distorcendo a história dos Estados Unidos pode atacar melhor a Administração Bush e a guerra do Iraque. Mas também pode acontecer que, no fundo, ele não estivesse a ser cínico ou ignorante, que estivesse antes a revelar o que ele realmente pensa que deve ser a política externa americana e não a explicar qual a sua "tradição".

De facto, a doutrina que enunciou era a doutrina defendida pelo movimento antiguerra e pela maioria do Partido Democrata após o desastre do Vietname. "Come home, América" era o grito dos que pensavam que os Estados Unidos se tinham simultaneamente corrompido a eles e ao mundo em "guerras de escolha". Os que defendiam esta doutrina propunham uma mudança radical: que a América abdicasse do seu poder e influência no mundo.

Não seria surpreendente que John Kerry, cuja vida e pensamento foram tão fortemente influenciados pela sua experiência no Vietname, regressasse agora ao que defendia há três décadas. E também não seria estranho que o verdadeiro acto de cinismo de Kerry tivesse sido o seu voto a favor da guerra do Iraque no final de 2002. Olhando retrospectivamente, talvez pense que vendeu a sua alma para se tornar "elegível", razão por que durante os longos meses que já leva esta campanha tudo está a fazer para surgir como um "falcão". Contudo, no fundo do coração, inspirado pelo que sempre defendeu ao longo da sua longa vida política, Kerry não é um "falcão".

Porém, as ironias abundam. Três décadas atrás, Kerry tornou-se conhecido pela sua militância contra a guerra do Vietname; agora apresenta de forma orgulhosa a sua participação nessa guerra para se distanciar "patrioticamente" da guerra do Iraque, que, no entanto, começou por apoiar.

Se realmente Kerry se revelou naquela frase, num momento de real sinceridade, então é altura de todos olharem honestamente para onde ele conduziria o país, caso fosse eleito. A "doutrina da necessidade" de Kerry, se entendida com seriedade, representaria um pacifismo e um isolacionismo como os Estados Unidos não conhecem desde a década de 30 do século XX. Excluiria todas as guerras travadas por motivos humanitários, todas as intervenções destinadas a prevenir genocídios, a defender democracias ou, como teria sido o caso do primeira guerra do Golfo, a repor a lei internacional contra os seus agressores. Porque todas essas guerras seriam "guerras de escolha".

Para alguém que disse que pretende estabelecer melhores relações com o resto do mundo, a doutrina Kerry resultaria numa política externa baseada em avaliações mesquinhas e egoístas dos interesses americanos bem para além do alegado "unilateralismo" da Administração Bush. Talvez fosse por isso altura de alguns europeus pensarem se querem que a política externa hiperambiciosa de Bush seja substituída por um recuo isolacionista. Depois de ouvirem o discurso de Kerry, talvez devessem começar a preocupar-se. Autor do livro "On Paradise and Power", sobre as diferenças entre a Europa e a América. Exclusivo PÚBLICO/"The Washington Post"